quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Tecnologia primitiva


O nível tecnológico que temos nos dias de hoje é impressionante, celulares, TV LCD, computadores, jatos de guerra que não podem ser rastreados por radares, sonar altamente potente em navios e submarinos, viagens espaciais, um motor de fórmula 1... Mais tudo isso teve um início. A ferramenta com o registro mais antigo que se tem notícia foi encontrada numa margem de um rio na ilha de Java, que é a segunda maior e a principal ilha da Indonésia. A ferramenta encontrada foi um machado e junto a esse machado tambem foram encontrados restos fossilizados de um hominídeo chamado Homo erectus. Pelos cálculos da ciência essa espécie viveu entre 1,8 milhões de anos e 300 000 anos atrás, num período geológico chamado de Pleistoceno. Mais o que teria levado esse hominídeo a criar essa ferramenta? Seria ultilizada para capturar presas? Seria ultilizado para lutas contra outros homo erectus na defesa de território? Ou seria ultilizado para matar uma esposa infiel? Ou um filhote atentado? Esse pergunta intriga uma parte de cientistas que tenta entender como o nosso cérebro evoluiu e chegou no nivel tecnológico que temos hoje. Alguns pesquisadores perceberam que algumas espécies de primatas elaboram alguns tipos de ferramentas, que são as mesmas encontradas juntas de vários restos de hominídeos. Então, podemos supor que, os mesmos fatores que levam um macaco a fabricar uma ferramenta foram os mesmo fatores que levaram o homo erectus a começar a fabricar as suas. Aqui nas Américas só tem um tipo de macaco que fabrica ferramentas, o macaco-prego. Para a ciência, até o momento, existe sete espécies diferentes de macaco-prego e em três delas ja se tem registro de fabricação de ferramentas. A Ilha de Curupu, que faz parte do município da Raposa no Maranhão, possui mais de 20 km de praias desertas e do outro lado da Ilha é coberta por manguezal, nesse manguezal é encontrado grupos de macacos-prego que usam pedaços de madeira para extrair das raízes do mangue um animal chamado turu, que parece um verme, usado na sua alimentação em determinados períodos do ano. Eu, juntamente com alguns colegas do curso de Biologia resolvemos acompanhar esses macacos nessa ilha durante quase um ano, e uma certa viagem a essa ilha, o grupo era formado por min, Luis Fernando (que está no meio do mangue na foto acima), Bento (de boné vermelho), Mikhail (de blusa azul sem boné) e Raymony Tayllon, o Babú (de boné branco). Chegamos na margem do mangue, após uma longa caminhada pela praia e depois passando pela vegetação que fica depois das dunas chamada Restinga. Começamos então a nos preparar para entra naquele ambiente onde ocorre intensa decomposição de matéria orgânica e exala um odor que muitos não gostam, outros se acostumam e outros não faz a menor diferença. Tiramos as botas, caso contrário atolamos na lama do mangue e as mochilas, para termos mais mobilidade para andar entre as raízes (que na verdade são troncos) do manguezal. Antes de entrarmos no mangue eu disse:
- Pessoal, pendurem suas coisas nos galhos, pois se a maré encher não irá molhar nossas coisas.
- Beleza.
Entramos no mangue, hora pisando na lama hora passando por cima de galhos e troncos de madeira. Em alguns pontos do mangue paramos para ficarmos apenas ouvindo qualquer coisa que possa dar sinal dos primatas. Nessas viagens, algumas vezes podemos registrar alguns comportamentos no mangue, mais nesse dia não conseguimos nem topar com o bando de macacos. O tempo passa, as “mutucas”, insetos chupadores de sangue, não param um só instante e nada dos macacos. Apenas o barulho das árvores do manguezal balançadas pelo vento, o estalo de caranguejos na lama e um palavrão baixo emitidos por um de nos quando topávamos em algo ou quando um caranguejo agarrava alguma parte do nosso pé. Até que eu percebo a maré tomar conta do mangue aos poucos. Nessa hora eu disse:
- Saca só galera como a maré enche rápido, há poucos minutos a água estava cobrindo meu pé, agora já está acima do joelho.
- Melhor voltarmos antes que a maré encha de vez.
- Beleza.
Caminho de volta e a maré enchendo mais e mais, até que a água já estava na nossa cintura, nessa hora eu percebi que tinha a possibilidade de termos que nadar alguns trechos, pois estava subindo muito rápido. Foi quando eu perguntei:
- Todo mundo aqui sabe nadar não é?
- Relaxa pó, eu sei. Tranqüilo. Foi o que o Babú respondeu.
- Comigo também não tem problema não. Essa foi a resposta do Mikhai.
- Rapaz faz tempo que eu nadei, mas dou conta. Bento.
Nessa hora, Luis Fernando fala o que ninguém acreditou, ou melhor, acreditamos e quase morremos de sorrir.
- Eu to fudido, eu não sei não.
- Puta que pariu. Fala sério, o mais alto não sabe nadar, moço...Acho que ninguém aqui dá conta de te carregar não. Kkkkkkkkkkkkkkkkkk. Foi as minhas palavras de consolo ao Fernando.
- kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk (Babú)
- kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk (Mikhail)
- kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk (Bento)
Até que chegamos ao local onde havíamos colocado nossas coisas, sem ter precisado carregar Luis Fernando. Mais o que vimos não foi nada agradável. Algumas mochilas boiando e botas debaixo d´agua. Uma das mochilas era a do Babú, nessa hora ele entra em desespero:
- Puta que pariu.
Ele pega a mochila toda molhada e começa a procurar desesperadamente algo, até que encontra:
- Caralho, o celular do meu irmão que eu peguei emprestado já era e o meu também. Cara e eu nem terminei de pagar essa porra ainda.
A alguns metros do desespero do nosso amigo Babú, Luis Fernando fala feliz da vida:
- Cara ainda bem que minha caneta da sorte não molhou...rsrsrssr.
- Vai tomar no cú porra. (Babú)
No auge do desespero, Babú pegou uma espécie de estojo que estava cheio de papeis e ele diz:
- Poxa pelo menos isso aqui não molhou.
Parecia um castigo divino, nesse exato momento aconteceu o inacreditável, na hora que ele terminar de dizer o estojo cai da mão dele direto para o fundo da água e molha todos os papeis. Ele começa a jogar tudo fora, falando palavras nada educadas e espalhando vários objetos e papéis no mangue. Mikhail tenta usar sua consciência biológica e diz:
- Tayllon não suja o mangue pô, sabe que isso é prejudici...
- Vai se fuder tu é o mangue, to nem aí
Não sei por que, mais nos, como amigos do nosso querido Babú, ao invés de darmos um certo apoio, só conseguíamos ficar sorrindo daquele acontecimento. Pegamos nossas coisas molhadas e voltamos para casa. Será que daqui a algumas centenas de milhares de anos, cinco macacos irão passar pelo que passamos naquele dia? Babú continuou pagando o celular e visitando o bando de macacos no mangue, mais depois desse dia ele nunca mais levou estojo, celular ou nada eletrônico para as nossas idas no mangue.

domingo, 19 de setembro de 2010

Qual seu sonho?


Rafael Mattos Lindoso é o nome desse elemento que ta ao meu lado esquerdo na foto acima, do lado direito está passando um velhinho “Robert” e logo abaixo de nos está os restos fossilizados do maior carnívoro terrestre que a ciência tem notícia, ele foi descoberto e divulgado para o mundo na revista Nature recentemente, em 1995. Foi um dinossauro que chegava a medir 13 m de comprimento, com seu peso variando entre 9 a 14 toneladas de muito músculo. Entre os dinossauros carnívoros, sem sombra de dúvida, o T-Rex é a grande estrela e o mais famoso, o Gigantosauro causou grande expando na época de sua descoberta por que ele era justamente maior que o lendário Tiranossauro rex, esse tamanho todo levou a vários produtores o colocarem em alguns documentários como:Walking With Dinosaurus Special - Chased by Dinosaurus da BBC e Dinosaurus: Giants of Patagonia da IMAX, mais mesmo assim nada disso foi suficiente para esse dinossauro Latino americano ter a popularidade que o seu colega T-Rex norte americano. Ambos viveram num perído chamado cretáceo, que é o ultimo período da era Mesozóica conhecida como “A era dos répteis”. Mais até chegarmos a esta foto, uma certa vez eu estava com Rafael Lindoso no museu de Paleontologia em São Luís, que fica localizado no centro histórico da cidade. E fiz a senguinte pergunta:
- Rafael como foi que tu conheceu esse museu?
- Eu vi num jornal.
- Ai tu começou a frequentar aqui?
- Foi. E não aprei mais.
- Desde quando?
- Rapaz, quando eu começei a vir pra ca, eu ainda estava no ensino médio.
E foi assim que o pequeno e franzino jovem estudante de ensino médio teve o seu contato com o centro de pesquisa no Maranhão que se dedicava a estudar fósseis. Durante o esino médio Rafael Lindoso trocou e-mails com paleontólogos renomados de diversas partes do mundo, alguns deles inclusive chegou a lhe enviar material como jornais e revistas sobre dinossauros e outros animais fossilizados. Rafael ficava a cada dia mais encantado com aquele mundo petrificado. Por três vezes ele tenta passar no vestibular para cursar Ciências Biológicas na UFMA, e em todas ele não passa da segunda etapa. Em uma dessas, eu conversei com ele:
- E ai Rafael será que esse ano dá?
- Cara, não sei passei denovo na primeira etapa , mais passei la em baixo.
- Hum, sei, mais tenta cara. O importante é não desistir.
- O que me mata são as provas de cálculos, eu me dou mal todas as vezes em Matemática, física e principalemente química.
A reprovação três vezes no vestibular não foram suficientes para o jovem desistir de ser um Paleontólogo, ele ingressou no curso de Biologia de uma Faculdade particular e como estudante de biologia participou de algumas explorações, uma delas foi na Ilha do Cajual, uma ilha situada próxima à cidade de Alcântara que tem uma grande concentração de fósseis. A grande quantdade de fósseis dessa ilha foi descoberta em 1995 e todos os anos tem sido realizadas expedições para à procura de mais fósseis. De todas as partes da ilha a parte sul da ilha nunca tinha sido explorada, devido as dificuldades de chegar a sua extremidade, pois essa parte da ilha é protegida por uma enseada que passa a maior parte do tempo submersa, quando a maré recua, só temos 30 minutos para ficarmos na parte Sul da ilha até a maré cobrir totalmente o local onde provavelmente teria fósseis. Durante anos, várias pessoas , inclusive o Paleontólogo Manoel Alfredo Medeiros tentou essa atravessia, mais até hoje dois grupos de pesssoas consegiu chegar na parte Sul da ilha. O primeiro grupo era formado por min, Ronny Barros e Rafael Lindoso, mais essa história eu conto outro dia. Na cidade de Brejo, que fica localizada na fronteira do Maranhão com o Piauí, as margens do Rio Parnaíba, quase no Delta do Parnaíba, foi encontrado um sítio fossilífero repleto de peixes, artrópodes e restos de plantas fossilizados, nessa expedição, mais uma vez eu e Rafael Lindoso tivemos a oportunidade de participar. Naquela ocasião o Paleontólogo Manoel Alfredo Medeiros me fez a seguinte proposta:
- Emílio, tu não quer tomar de conta das expedições aqui em Brejo?
- Não sei, vou pensar.
- Olha, aqui tem material que dar um mestrado e muito provavelmente um doutorado em Paleontologia.
- Vou pensar.
Eu pensei e recusei, não era muito “a minha praia” estudar peixes e artrópodes fossilizados, nem a do Rafael Lindoso que era apaixonado por dinossauros. Mais como não apareceu nenhum novo dinossauro no Maranhão enquanto o Lindoso foi estudante, ele acabou assumindo as expedições em Brejo e se dedicou a fazer a prova de mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro/ Museu nacional e o resultado? Passou entre as primeiras colocações no Programa de Pós-graduação em Geologia no instituto de Geociências da UFRJ. Daqui a menos de um ano ele será mais um paleontólogo no Brasil e um jovem com seu sonho realizado. E quanto à foto, foi tirada no museu Paleontologico Ernesto Bachmann localizado na cidade de Neuquen, Patagônia. O museu foi erguido em cima dos restos fossilizados do Gigantossauro, grande idéia essa. Para uma vida ter sentido é preciso sonhar acordado, por que nem sempre agente lembra do que sonhou na noite anterior, então estipule metas na vida e corra atrás, e se não chegar, você irá perceber que valeu a pena ter tentado.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Sobrenatural


AVISO
(Para preservar as pessoas envolvidas no episódio abaixo, resolvi não mencionar nenhum nome)

A foto a cima é uma base de estudos da Universidade Federal do Maranhão que abrigou estudantes de diversas áreas da biologia. Está localizada próxima a cidade de Urbano Santos, numa área de Cerrado maranhense. Eu não sei se ainda está ativa, mais durante todos os anos que fui aluno do curso de Ciências Biológicas, vários grupos de estudantes desenvolveram pesquisas, beberam bebidas alcoólicas, contaram boas piadas, contaram piadas infames, despertaram mais amor pela sua área de estudo ou odiaram as idas para campo nesse local. Em um dia ensolarado, um grupo de estudantes praticava um método de estudo chamado “procura ativa”, é um método que uma pessoa procura ativamente na mata, durante um determinado tempo, algum animal. Esse grupo específico, procurava anfíbios e répteis em determinadas trilhas já marcadas. O dia fazia muito sol, a procura é proveitosa, alguns animais são encontrados. Alem desse método de encontrar esses animais, o grupo colocou armadilhas espalhadas em pontos específicos da área da fazenda. Essas armadilhas são visitadas e as vezes algum anfíbio, lagarto ou uma pequena serpente é capturada, é um método chamado de armadilhas de interceptação e queda (pitfall). Não confundir com o jogo eletrônico lançado para o video game Atari em 1982 onde controlamos o personagem Pitfall Harry através de uma floresta em forma de labirinto tentando recuperar vários tesouros em determinado tempo. Quem trabalha estudando anfíbios e répteis é chamado de Herpetólogo, e esse profissional tem que procurar esses animais tando de dia como a noite, por isso é uma área da biologia que requer muita dedicação, paciência e tem que gostar muito de estar na mata. A noite chega, é um céu sem estrelas e sem lua, hum herpetólogo não entra na mata em dias de lua, pois a claridade desse astro inibi a saída de alguns animais de suas tocas. Os ventos alísios de nordeste trazem uma corrente de ar fria, as árvores estão se movendo lentamente.
- Todos prontos?
- Sim, está todo mundo de botas 7 léguas, calça jeans, lanterna e facão.
- Vamos então, silencio a partir de agora.
O grupo entra na mata, cada um no seu percuso, o que se ouvena mata depende da estação, a vocalização de alguns sapos e perecas, em rituais de acasalamento e defesa de território, é ouvido apenas em épocas de chuva. As lanternas procuram ativamente por esses animais, animal encontrado, animal registrado. Dependendo da espécies alguns são capturados outros não, em alguns pontos das trilhas da de se ouvir o barulho das águas calmas do Rio Mocambo, esse rio que mais parece um riacho refrescou inúmeros estudantes em fins de tarde. Essas saídas no campo provocavam divesas reações dependendo do horário, alguns não sentiam nada, outros quando se aproximavam do rio sentiam vontade de “pássar um fax” (cagar) no meio do mato . Um grande colega meu me disse que gostava de andar sozinho, ficava viajando como se fosse um bicho selvagem ali, sabia onde tinha ninhos de certas espécies de vespas, de aves, onde encontrava certas espécies de lagartos, esse cara tem até vontade de ganhar uma boa grana e comprar a fazenda para ir pra lá passar umas duas semanas por semestre, uma temporada na estação chuvosa e outra na estação seca do ano. Tudo isso para poder apreciar as peculiaridades de cada tempo e as variações do ambiente ao longo das estações. Sempre que aparecia um marinheiro de primeira viajem pegava alguns sustos com o barulho das árvores rangendo ou uma coruja em seu canto cavernoso rasgando o silêncio da mata escura e fria. Fim do tempo de procura ativa, todos retornam a base, conversas fiadas pra cá, conversar pra lá, algumas vezes uma discussão um pouco mais séria sobre um artigo científico publicado em uma revista especializada no assunto, e nesse dia especificamente estão todos sentados na varanda da casa e um barulho de algo correndo na mata chama atenção de todos:
- O que é aquilo?
Todos olham na mesma direção e o que se vê são as folhas de arbustos sacudirem de forma intensa, como se algo estivesse fugindo mata adentro. Todos que estão ali observam algo de menos de um metro de altura ir pelas matas em direção ao Rio Mocambo.
- Pega uma lanterna, eu vou com uma e tu com outra.
- O que tu acha que é aquilo?
- Deve ser uma raposa, vamos la conferir.
Uma das meninas que estavam no grupo diz:
- Deixa isso pra lá. Biólogo é bicho doido mesmo, não pode ver um bicho no mato que sai correndo pra ver.
- Fiquem ai, agente vai lá rapidinho.
Saíram os dois pela trilha que leva ao rio, escuro total, o que se dava pra ver era onde batia a luz da lanterna, a noite estava fria e sem chuva, nenhuma vocalização de anfíbios, nada de grilos, o que se ouvia era os passos apressados de dois jovens atrás de algo que ninguém sabia o que era. Durante o percurso, outra corrida do animal e os dois jovens param.
- Espera aí.
- Olha lá.
- Vamos fazer o seguinte, eu vou pela esquerda e subo em cima do morro na beira do rio e tu vai pela direita, agente vai com as lanternas apagadas, ligamos ao mesmo tempo ao meu sinal.
- Beleza.
Assim foi feito, eles chegaram ao rio e se posicionaram, um ficou em uma ribanceira nas margens do rio e outro subiu até a metade de uma árvore que ficava na beira do rio, ambos se olham e dão um sinal com a cabeça de que é a hora de ligarem a lanterna onde os arbustos tinham se agitado pela última vez, quando ambos ligam a lanterna eles dão de cara com algo que iria mudar suas vidas a partir daquele dia, a pupila de ambos se dilata, o coração dispara e muito sangue é bombeado pelas artérias a várias partes do corpo, os sentidos ficam mais aguçados, pelos ficam eriçados, todos esses sintomas são sinais de alerta que o corpo emitem sempre que estamos em perigo, uma verdadeira descarga de adrenalina. Eles não acreditam no que estão olhando, um olha para o outro para ter certeza de que o seu companheiro esta vendo a mesma coisa, e os dois se vem bastante assustado, olham novamente para as margens do rio e com a luz da lanterna focando aquilo que outrora passava por arbustos, viram uma pessoa da cintura para baixo, ou seja, duas pernas humanas muito branca sem o tronco. Essas pernas começam a correr e os dois acompanham a corrida com o foco da lanterna, é uma corrida na beira do rio, pingos são lançados no ar a cada passada e os dois amigos levantam a lanterna de cima a baixo e não conseguem ver o corpo, somente duas pernas humanas muito branca correndo nas margens do rio a menos de trinta metros deles, que entra na mata e o silêncio reina mais uma vez na mata, o que se ouve mais uma vez são as árvores rangendo devido ao vento da madrugada.
- Tu viu o que eu vi?
- Vi sim
- O que era aquilo?
- sei lá
Os dois retornam a base em silêncio. E ouvi as pessoas perguntarem:
- O que era que passou correndo aqui?
- Nada não.
-Como nada?
- Nada, vamos dormi.
Todos entram sem entender, mais estava estampado no rosto de ambos o que viram não foi algo natural. Estavam pálidos, trêmulos, olhos esbugalhados. Nenhum dos dois continuou fazendo trabalhos de campo, abandonaram o campo, mudaram suas vidas, hoje essas duas pessoas fazem coisas totalmente diferente do que faziam antes desse dia. Quando eu lembro desse fato, me recordo sempre a uma frase de William Shakespeare, onde ele diz que: “Existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia." Realmente, determinadas situações e lugares mudam o rumo de nossas vidas e idéias que temos.

domingo, 5 de setembro de 2010

Buenos Aires


Um poeta já falou vendo um homem em seu caminho: “O lar do passarinho é o AR e não o ninho” e eu voei...e conheci nossos vizinhos hermanos na Argentina. Nessa viajem, antes de tocarmos o solo argentino entramos num tubo que fazia a ligação entre o avião e o salão do aeroporto, nesse caminho já dava pra sentir a diferença de temperatura entre os 21 °C de dentro do avião e os 10 °C do lado de fora. Nessa descida, meu colega Rafael Lindoso fez uma colocação nada feliz de um típico nordestino acostumado com temperaturas médias de 32°C.
- Caramba, o ar condicionado aqui nesse aeroporto é potente.
- Rafael, essa é a temperatura aqui na Argentina agora, não é ar condicionado.
- Tu é louco? Isso é o ar condicionado do aeroporto.
Entramos no salão de desembarque e fomos direto para a porta do aeroporto, deixamos as malas e mochilas e fui procurar um caixa para realizarmos nosso primeiro saque de dinheiro em território estrangeiro. Engraçado, eu perdia 2,5 dólares de imposto por saque realizado. Eu percebi isso quando saquei duas vezes e percebi que tinha perdido quase vinte reais do dinheiro que estava na minha conta. Retorno ao aeroporto e a essa altura todos percebem que não tinha ar condicionado no aeroporto era na verdade um aquecedor, do lado de fora do aeroporto era que estava realmente frio. De táxi fomos até um albergue, acertado as contas e demos uma volta na vizinhança para nos familiarizarmos com o bairro Palermo. Ronny Barros decide ir com sua camisa do São Paulo Futebol Clube, no fim do dia com a temperatura já bem baixa, Ronny treme mais que vara verde, implorando o tempo todo para voltarmos para o albergue pois estava morrendo de frio, quase congelando. Voltamos para o albergue, banho quente, aquecedor ligado no quarto, noite tranqüila. Amanhece o dia:
- Vamos conhecer Buenos Aires ????
- Na hora.
Após tomar um café da manhã bastante reforçado, pegamos um mapa da cidade com os principais pontos turísticos da cidade, vimos que o metrô seria a opção mais viável, pois era barato e rápido. Pra quem nunca foi a Buenos Aires, o sistema de metrô da cidade, inaugurado em 1913, é o mais antigo da América Latina e de todo o Hemisfério Sul, você pode conhecer os quatro cantos da cidade pagando em média o equivalente a menos de cinco reais. Pois cada viajem custa apenas alguns centavos, sabendo disso e que cada saque realizado pagávamos 2,5 dólares de imposto, eu resolvi sacar todo o dinheiro que eu tinha na minha conta. Saque realizado, dinheiro na carteira, partimos para o metrô que na Argentina chama-se “subte”. O metrô de Buenos Aires é impressionante, é possível encontrar em suas instalações pinturas e murais originais e reproduções de diversos artistas alem de apresentações de música ao vivo. Nas escavações dos túneis, foram encontrados restos de mamute, mastodonto e de gliptodontes (mamífero extinto, membro da ordem Xenarthra ancestral dos atuais tatus, media cerca de 3 metros de comprimento e pesava cerca de 1,4 toneladas, sendo equivalente em forma e tamanho a um Volkswagen Fusca) todos estes restos de animais pré-históricos estão expostos na estação Juramento e na estação do Tronador. A Grande Buenos Aires é a terceira maior aglomeração urbana da América Latina, com uma população de mais de 13 milhões de habitantes e entre tantos argentinos, um malandro ou malandra, eu não sei quem foi, mete a mão no bolso da minha calça e leva minha carteira, com uma destreza e agilidade que impressionaria qualquer marginal da praça da Sé em São Paulo. Eu simplesmente não senti nada, pelo menos nos dois minutos que se passaram entre uma estação e outra. Ou melhor, eu senti muito foi depois, ao perceber que não tinha carteira e junto com a carteira foi embora, todo o meu dinheiro, meu cartão da caixa econômica, o outro cartão do Banco do Brasil, todos os meus documentos (identidade, CPF, Reservista), minha carteira de doador de sangue da Hemomar, minha carteira de alberguista e minha carteira de estudante.
- Ei pessoal, roubaram minha carteira.
O desespero toma conta do pessoal e eu não sei por que nessa hora, comecei a sorrir. E pensei: “ no final vai dar tudo certo”. Fomos à polícia do metrô, tentativa em vão, eles me orientaram a procurar a polícia federal, enquanto um policial argentino me explicava como eu deveria proceder, um colega dele também policial fazia boca de riso. O que será que este argentino pensou nessa hora? “Se fudeu brasileiro, hahahahaahah” devia ser algo do tipo. Na polícia federal também não foi diferente, ou melhor, foi pior.
- Buenos dias.
- Buenos.
- Eu vim prestar uma ocorrência de roubo, eu fui assaltado no metrô.
- São 10 pesos senhor, pra registrar uma ocorrência.
- O que? 10 pesos? Mais eu fui assaltado e levaram todo o meu dinheiro.
- Eu lamento senhor.
Da para acreditar numa coisa dessas? Eu pensei que era um argentino querendo se dar bem em cima de uma desgraça de um brasileiro, mais nessa hora chegou um argentino que também estava La por que tinha acabado de ser assaltado e o policial diz:
- São 10 pesos senhor, pra registrar uma ocorrência.
Nessa hora pude acreditar no inacreditável, para minha sorte, meus amigos me emprestaram dinheiro e registrei a ocorrência, de lá fui até a embaixada brasileira na argentina e mostrei a ocorrência, isso era necessário para poder tirar um documento para sair da Argentina. O pior que não bastava apenas o registro da ocorrência, nessas situações, você tem que ter mais duas testemunhas que conhece onde você mora, para minha sorte, eu andava com minha namorada (Mayra Nina) e meus colegas (Ronny Barros e Flavinha). E se eu estivesse andando na cidade sozinho e acontecesse isso? Não quero nem imaginar uma situação dessas, ou quem já passou por isso. Depois de passar alguns dias Argentina vivenciando uma outra cultura e uma outra moeda, posso dizer que agora eu sou um poeta vendo um homem a caminhar e digo que: “O lar de um passarinho é o NINHO e não o ar” e eu voltei... para o meu bom e maravilhoso Brasil.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Ilha do Cajual


No outono de 2007, eu levei um grupo para conhecer de perto a Ilha do Cajual. Há mais ou menos 95 milhões de anos caminhavam nessa ilha alguns animais hoje extintos, era um local com algumas plantas que pareciam samambaias, espalhadas ao longo de praias no litoral e alguns pântanos. Nesses pântanos, ocorriam crocodilos e os maiores predadores que o mundo já viu... os dinossauros. Entre os dinossauros já descritos pela ciência, a Ilha do Cajual comportou dois pesos pesados, o espinossauro e o carcharodontossauro. Ainda bem que eles não estavam la quando eu e um grupo de jovens resolvemos ver o que sobrou desses animais extintos a milhões de anos, ou seja, os seus fósseis. Chegando na ilha, após atravesar a Baía de São Marcos e o canal do Boqueirão em um Catamarã, colocamos as mochilas, mantimentos e as barracas na praia deserta e fomos conhecer as falésias da ilha e entender como ocorre o processo de preservação de restos orgânicos que se chama fossilização. Caminhando alguns quilômetros de praia deserta chegamos a primeira falésia, depois de algum tempo fomos para a segunda falésia, o grupo ficou empougado e o sol da tarde é encoberto por nuvens de chuva, derrepente o céu está fechado e começa a chover. Eu disse:
- Galera, vamos voltar rápido e armar as barracas e colocar nossas coisas dentro por causa da chuva.
Barracas arrmadas, chuva na praia, raios, o som dos pingos d´agua na vegetação da Ilha e nessa hora surge uma das paixões nacional, uma bola de futebol. Começa uma pelada na chuva, numa praia deserta, numa ilha quase deserta, exceto por alguns moradores no centro da ilha, mais distante de onte estávamos. A noite chega e tudo estar perfeito, Adjaci aparece com uma bandeija de 40cm de circunferência cheia de arroz e frango, farofa, pães, água, até misto levaram. A fogueira é feita e um violão surge na noite, a essa altura uma garrafa de 51 está quase seca e o vento leva o som dos versos de Renato Russo, vocalista do Legião Urbana, para o interior da ilha:
-“ Será só imaginação, será que nada vai acontecer...”
É realmente será que não iria acontecer nada? Aconteceu. Do interior da ilha saiu um Austríaco que mais parecia a Xuxa Menegel com uma certa dose de testosterona. Ele chega próximo a fogeira e começa a conversar com os jovens, nessa hora eu me aproximo:
- Boa noite.
- Boa noite. A xuxa responde, ou melhor o austríaco que depois o pessoal ficou chamando de “gringo”.
- Algum problema? Eu preguntei.
- Você é o responsável por esse grupo?
- Sim, o que aconteceu?
Esse austríaco estava em uma casa de propriedade de uma ONG chamada AMAVIDA, ele estava incomodado com o som que os jovens estavam cantando, enquanto eu conversava com ele, eu percebo Ana Paula passar perto e falar ao celular:
- Mãe, tem um gringo aqui que ta dizendo que se agente não para de fazer barrulho vai matar agente!!!
Meu Deus, que merda que a Ana Paula ta falando com a sua mãe? Um outro jovem, o Stênio, pega uma tora de madeira e pensa em resolver as coisas de um jeito nada amistoso, conversa vai conversa vem, eu digo para todos se acalmarem e o gringo retorna a seus aposentos com a idéia de que as músicas iriam parar.
- Pessol se vocês quiserem cantar, podem cantar, mais cantem mais baixo. Agente tá em uma ilha isolado de tudo, se acontecer alguma merda aqui é complicado resolver. Aqui não tem nada e o próximo barco que chegará vai ser o nosso catamarã amanhã a tarde.
A noite continua, a bebida tambem, as músicas são variadas desde Manonas Assassinas até Red Hot Chili Peppers, Rômulo não consegue dar três passos sem cair de cara na areia e chega uma hora que temos que dormi. No outro dia, vamos conhecer a famosa Laje do Coringa, um grupo de rochas que fica exposta apenas quando a maré está baixa, o sol é muito forte mais fomos até la, passando por quase dois quilômetros de lama até chegar na Laje. Conseguimos ver alguns fósseis e retornamos para uma sombra na beira de uma falésia. Sol escaldante, calor infernal. Alguem que eu não recordo me diz que a Mariana Pinho não estar se sentindo bem, ela estar na barraca, fui até la.
- O que tu ta sentindo Mariana?
- Tô com corpo ruim.
- O catamarã ta pra chegar, da pra aguentar?
- Dá.
Isso já era depois do almoço, e o Catamarã iria chegar umas quatro da tarde. De subido o tempo muda, de calor infernal, nuvens muito carregadas cobrem o céu.
- Pessoal coloquem as coisas nas barracas, vai cair um temporal.
Nessa hora todo mundo se ajuda, principalmente Ronny, Fernanda e Flávia que eu tinha convidado para me darem uma força nessa viagem. Eu entro na barraca da Mariana e ela diz que está sentindo uma dor muito grande nas pernas. O temporal começa, a temperatura cai de uma forma dramática, Mariana diz sentir muito frio, eu começo a colocar os seus cobertores em suas pernas.
- Ei pessoal, tragam cobertores para cá rápido!!!
Várias pessoas começam a levar cobertores para lá, Mariana diz não sentir as pernas. Eu pego no seu pé e aperto com muita força:
- Ta sentindo alguma coisa?
-Não
Ela ta com princípio de hipotermia, eu pensei. A chuva aumenta e a barraca rasga e começa a entrar água na barraca, Rômulo fica na entrada da barraca juntando água que se acumula na barraca e joga para fora, eu chamo mais gente para ficar abraçando Mariana para tentar esquentá-la. Saio correndo La para a base da AMAVIDA na esperança do Austríaco ter algo, ele me consegue um papel aluminho enorme. Perfeito! Chegando à barraca eu coloco o papel por cima da Mariana.
- Emílio, eu não sinto mais meu corpo e não to conseguindo respirar direito.
Nessa hora não da pra se fazer nada, só esperar. O Catamarã chega, Mariana é colocada no barco e no meio da viagem eu ligo para o meu primo (Filho) que imediatamente foi de carro La para o porto do cais nos esperar para levar Mariana ao hospital, ao longo do retorno eu fico com Marina o tempo todo, ele volta ao normal aos poucos e quando chegamos ao cais, ela consegue sair andando e dizer que não precisava ir ao hospital. Dias depois eu fiquei sabendo que ela estava com dengue antes da viajem mais não falou nada a ninguém, pois queria muito conhecer as ilha dos dinossauros.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Energia elétrica


Certo dia, eu procurava macacos perto de uma área popularmente conhecida como Reserva Florestal Novo Milênio, município de Camamu – BA e econtrei o seu João, que é este homem que eu converso na foto acima. Até hoje me lembro como se fosse ontem o dia que eu entrei em sua propriedade, como eu e o grupo que andava comigo (Cambará, Rafael, Mariana e Míriam) estávamos com equipamento de playback, máquinas fotográficas, GPS , cantil e mochilas, o seu João me fez uma pergunta que nunca saiu da minha cabeça:
- Vocês são do Globo Repórter?
- Não. Como é seu nome?
- João.
- Somos pesquisadores e procuramos por macacos, estamos desenvolvendo um trabalho para ajudar na preservação dos macacos da região.
Seu joão era um sujeito incrível, ele tinha nascido la e criado toda a sua família, já tinha filhos grandes e depois que ficou sabendo do nosso trabalho falou de várias histórias que teve na sua pequena terra.
- Criei todos os meus filhos aqui nessa beira de grota, só que agora ta complicado.
- Por que seu João?
- Como os terrenos aqui na área são muito cheio de quedas, tão querendo tirar todo mundo daqui pra fazer uma usina pra gerar energia. Vão acabar com a cachoeira e tirar agente daqui.
Gerar energia! Hoje quando eu penso em energia, sempre me lembro do seu João e toda a sua família. Meninos pelados na beira do córrego, o filho pequeno com vontade de ir até na cachoeira, mais como não sabe nadar fica só imaginando o dia que irá chegar até ela, sua esposa lavando trouxas e trouxas de roupa e logo depois chamando as crianças para irem para casa que já estava tarde, as noites e tardes de pescaria entre seu João, amigos e compadres, as brincadeiras da mulequada no pequeno sítio, as passarinhadas nos domingos e a marcação na baladeira de quantos pássaros foram abatidos, as rodas de fogueiras à noite para se protegerem do frio, os carrinhos de plásticos no dia das crianças e o seu amor pelos bichos que visitavam a sua propriedade como os macacos sagüis. Macacos estes que todas as vezes que o seu João chamava, eles apareciam. Os cachorros começavam a latir e as crianças faziam a festa. Seu João então começava:
- Nico nico nico nico nico nico...
Os sagüins apareciam e começava a festa, ele os alimentava e conversava com agente com muita alegria, como se nunca ninguém tivesse se preocupado com o destino daquela família e dos sagüis. O projeto esta pronto pra ser aprovado, a pequena hidrelétrica iria gerar mais energia pra sociedade ali perto.
Gerar energia! Hoje em dia muita gente fica com raiva com aquele download que não terminou por que houve uma queda de energia, muita gente já ouviu “bronca” por deixar a TV desligada em stand by ou por não ter desligado o stand by ou ainda, por ter deixado a TV ligada sem ninguém assistindo, à luz faltou justamente naquela hora que você estava estudando para a prova no dia seguinte. Você esqueceu de trocar a lâmpada do banheiro e agora tem que tomar banho ou fazer necessidades fisiológicas no escuro, e quando falta energia na hora daquele jogão na Rede Globo? É complicado. Ta calor! Ainda bem que existem os ventiladores e ar-condicionado, o liquidificador funciona para fazer aquela vitamina que só você sabe fazer e a máquina de lavar ajudou de forma significativa o serviço das empregadas, mais detonou aquela sua camisa que você tanto gostava mais que não podia ser lavada na máquina. Segundo a Aneel, até o dia 18 de Agosto de 2010, as nossas hidrelétricas geram 67,31% de toda energia consumida no país, com 863 hidrelétricas instaladas. Levando em consideração que temos um litoral de 7.408 quilômetros de extensão e que temos ventos ao longo de todo o ano, a energia eólica gera apenas 0,67 % da energia consumida no país. Importarmos do Paraguai 5,46 % da energia que consumimos, 2,17 % da Argentina, 0,19 % da Venezuela e 0,07 do Uruguai. No último filme do boxeador Rocky Balboa interpretado por Sylvester Stallone tem uma cena que me chamou atenção, o Rocky estar recordando um lugar que ele viveu e diz:
- Quando você vive muito tempo em um lugar, acaba se tornando este lugar.
Enquanto aquela camisa ficou danificada na máquina de lavar, o stand by da TV ficou ligado, você deixou de ouvir a voz do Galvão Bueno por alguns minutos e aquela vitamina ficou pronta. Eu tenho certeza que o seu João estar muito mais preocupado do que todos nós. Não deve ser fácil, ceder o local que nasceu, morou e criou sua família, para fazer pessoas passarem raiva ou não valorizarem a energia que tem a quilômetros de distância.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Uma noite alucinante I


Depois de atravessar baía de Alcântara em uma canoa que quebrou o remo, chegamos (eu, Rafael e Ighor) ao cais de Alcântara, com apenas o dinheiro de pagar a passagem de volta a São Luís e alguns trocados para um lanche. Mais teríamos que procurar um local pra dormi, pois era 18:00h e não havia mais nenhum barco para São Luís naquele dia.
- E agora o que agente faz?
- Vamos dormi na igreja, é a casa do senhor. O padre deve entender nossa situação. Eu falei.
Começamos a percorrer a principal rua que leva a Praça da Matriz que é a parte mais alta da cidade, reservada para os prédios públicos, igrejas e grandes sobrados. No caminho eu tive uma idéia:
- Vamos conversar alto para as pessoas saberem que estamos precisando de um local pra dormi, vai que exista alguma alma boa e nos ajude?
- É mesmo. Rafael fala com um tom de ironia e Ighor fica sorrindo.
Sempre que estávamos passando por um grupo de pessoas na rua começávamos a falar altas frases como:
- Cara, será que agente consegue um local pra dormi?
- Perdemos o último barco e não temos dinheiro para dormi em um hotel.
As pessoas olhavam três jovens descalços, sujos de lama, fendendo, queimados de sol, Ighor com seus olhos sempre vermelhos e com mochilas nas costas. Hoje eu reconheço que, dificilmente iríamos conseguir ajuda voluntária na cidade de sobrados, feita de paredes de pedra e cal e ainda com fachadas revestidas por azulejos portugueses, que foram tombadas pelo Iphan em 1948 como “Patrimônio Nacional”. Chegamos à igreja e para nossa surpresa, estava fechada. Batemos várias vezes e nada, a igreja fica numa elevação com uma vista privilegiada da baía e das redondezas. Dá até para avistar no horizonte, alguns prédios de São Luís.
- Por que agente não dorme aqui?
Colocamos as mochilas no chão e sentamos, nos fundos da igreja. Estávamos diante de uma vista espetacular, o mar ao fundo e os últimos raios de luz no céu, mais uma coisa fez agente sair de la. Muita “muriçoca”, “praga” ou mosquito seja la como você conheci esses insetos, alem de um inseto bem pequeno que eu conheço como “maruim”, tinha bastante. Esse monte de insetos era devido a um enorme manguezal que cerca toda a cidade de Alcântara. Não foi uma boa idéia ficar ali, levantamos e continuamos a vagar pela cidade até cruzarmos um monte de velhinhas andando e cantado, tocando uns tambores com suas vozes arrastadas (parecia uma procissão). Chegamos à praça matriz onde se realiza as principais festas da cidade, mais a praça estava quieta, sombria e úmida (havia chovido naquela tarde). Encontramos um beco e tive uma triste idéia:
- Vamos dormi ali?
- Ta muito úmido, como agente vai deitar naquele chão úmido? Tu é louco? Isso foi o que Ighor respondeu. E logo em seguida eu disse:
- Agente vai dormi aonde? Numa calçada? No meio do frio? Em todo lugar ta molhado.
Continuamos a andar e vimos um cyber que vendia lanches, nessa hora Rafael disse:
- Eu to com fome, vamos ver o que tem pra comer ali.
O cyber tinha cinco computadores e um cliente acessando, sentamos no balcão e perguntamos o que tinha pra comer. Pastel, foi o que Afonso, o dono do cyber disse. Pedimos vários pasteis, depois de horas sem comer ou beber aquilo era uma excelente refeição. Descobrimos, com Afonso, que em Alcântara existe uma moeda paralela ao real chamada “Guará” Rafael pediu para olhar uma cédula e continuamos a usar a mesma tática, falando que não tínhamos onde dormi, quase morremos na baía e o Afonso apenas ficava sorrindo das histórias, e nos riamos aquele riso de desespero e pensando: “Putz, esse cara não vai oferecer um local pra dormirmos?”. Até que uma hora eu disse:
- Cara, tudo que agente queria era uma sala para deitarmos no chão.
Eu quase falei que poderia ser uma sala de cyber que vendia lanches. Afonso continuava sorrindo, Rafael e Ighor também. Até que teve uma hora no auge do desespero eu disse:
- Afonso, será que agente pode dormi aqui na tua sala?
- Rapaz, infelizmente não vai dar (ele falou isso sorrindo).
Dava pra entender, colocar três estranhos em casa não seria um ato muito prudente, ainda mais que ele tinha mulher e filha. Saímos do cyber e sentamos em sua calçada, retiramos o caderno de anotações e os equipamentos (binóculos, cantil, camelbak...) e começamos a passar a limpo o que havíamos visto no ninhal dos Guarás. Nessa hora, passa do outro lado da rua um rapaz moreno e magro, vestindo um short grande e olhando para nosso equipamento. Ele se afasta e some nas ruas escuras de Alcântara. Aparece então à pequena “Lua”, filha do Afonso. Tinha uns 7 ou 8 anos e começa a conversar conosco, Rafael faz três origamis (do japonês: de oru, "dobrar", e kami, "papel”) que é a arte tradicional japonesa de dobrar o papel, criando representações de determinados seres ou objetos com as dobras geométricas de uma peça de papel, sem cortá-la ou colá-la. Lua acha bonito e ganha os origamis feitos por Rafael, duas estrelas e um camelo. Do outro lado da rua, o moreno magro de feições fortes passa novamente e eu digo:
- Ei Ighor, Rafael, da uma olhada naquele elemento do outro lado da rua. Já é a segunda vez que ele passa pela gente e fica olhando para nossas coisas.
Ele continua andando e dobra uma esquina, guardamos os equipamentos e a mulher do Afonso chega nessa hora perguntando sobre o que fazíamos.
- Somos estudantes de Biologia. Viemos observar os Guarás.
- Interessante, quer dizer que perderam a lancha pra São Luís?
- Foi.
- E vão dormi aonde?
- Não sabemos ainda, vamos procurar alguma calçada.
- Não! O que é isso? Eu consigo um local para dormirem, tem um jardineiro nosso que ta num casarão aqui perto, daqui a pouco ele chega e vocês podem dormi la.
- Poxa, obrigado.
O Afonso poderia ter sido mais gentil como sua esposa, não sei se ele foi cuidadoso por causa da mulher e filha ou se ela foi uma mulher ingênua que acredita nas pessoas. Mais tudo bem, estávamos aliviados (tínhamos um local pra dormi, era só isso que importava). Novamente o moreno passa do outro lado da rua mais uma vez, sempre olhando paras nossas mochilas e mais uma vez ele caminha até desaparecer na escuridão do final da rua.
- Esse cara ta querendo algo.
- E se ele seguir agente e tiver armado?
Passado certo tempo e nos ali na calçada conversando, a pequena Lua brincando com seus origamis, ouvimos a mulher do Afonso dizer que poderíamos ira para o casarão onde estaria o jardineiro.
- Ele é la de São Luís, esta cuidando do jardim da prefeitura. Acho que ele vai embora amanha também.
- Ele mora em qual bairro? Eu perguntei. E ela respondeu:
- No coroadinho.
O coroadinho é um dos bairros mais violentos de São Luís. Mais o cara era um trabalhador, jardineiro! Estava ali para trabalhar para a prefeitura de Alcântara, fomos então para o casarão. Rua deserta, escura e um silêncio terrível. O casarão parecia abandonado, muito sujo e com os rebocos das paredes caindo os pedaços, a porta se abre e para nossa surpresa, demo de cara com o moreno magro e de feições rudes que há algumas horas estava passando pela gente, pegamos um susto. Explicamos o que tinha acontecido com agente e que a mulher do Afonso nos enviara para la.
- Sem problema, podem entrar e ficar à-vontade. Eu vou dormi la em cima com um colega meu e vocês podem ficar onde acharem melhor.
Entramos no casarão e constatamos que estava realmente abandonado, o único móvel que vimos foi um sofá todo rasgado e fedido no meio de um corredor, no final do corredor havia uma escada muito suja que levava ao andar superior.
- Cara, e agora?
- Eu vou dormi aqui. Foi o que Ighor respondeu.
Resolvemos subir a escada e ver o que tinha la em cima, a escada levava a uma varanda no segundo andar que estava completamente suja de lixo, urina e fezes de gente.
- Vamos procurar outro lugar pra dormi. Esse cara tava passando pela gente toda hora e já observou que agente tem equipamento de valor.
- Se esse cara for um mau elemento, pode matar nos três aqui, nos roubar e ir para o coroadinho em São Luís, quem vai saber quem matou agente?
- Aqui ta sinistro mesmo.
Nessa hora o meu celular começa a tocar. Pronto, agora nosso amigo sinistro já sabe que alem dos equipamentos também temos celulares.
- Alô? Quem ta falando? Era minha namorada preocupada comigo, pois eu não havia chegado a São Luís.
- Agente perdeu o barco, mais estamos voltando amanha na primeira lancha.
- Estar tudo bem ai?
- Claro, tenho que desligar agora, depois te explico certo?
Saímos do casarão e fomos avisar ao Afonso e sua mulher que iríamos procurar outro lugar, explicamos os motivos foi quando ela compreendeu e falou:
- Tem outro lugar, a casa de cultura de Alcântara.
- Beleza.
A casa de cultura estava se preparando para a Festa do Divino, a festa tem seu ápice durante o domingo de Pentecostes (50 dias após a Páscoa), mas os rituais começam na quarta-feira da semana anterior, quando o Mastro do Divino, um tronco de 10 metros, é levado pelos devotos do porto até a Praça Gomes de Castro. Acompanhados de músicos e sob foguetório, eles fixam no alto do tronco a bandeira do Divino. Fomos bem acolhidos na casa, tomamos banho, e separaram um tapete enorme no chão de uma sala para deitarmos. “Ufa, conseguimos”, deitamos no chão um ao lado do outro e começou uma chuva de “muriçocas” de madrugada. Eu levantei minha cabeça e olhei no fundo do salão a estátua do Divino em cima de uma mesa, a mesa estava coberta por uma toalha. Levantei-me, retirei a toalha, voltei para o chão e me enrolei. Na manhã seguinte, Rafael e Ighor estavam com muitas marcas de picadas de muriçocas, a “toalha do Divino” me protegeu. Pegamos a lancha de volta a São Luís antes das 6:00. Estávamos indo de volta para casa.